sexta-feira, 15 de novembro de 2024

A TRANSGRESSÃO ROMÂNTICA DE JUNERLEI

Flávio Reis

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Na vida nos deparamos, em certas situações, com o imponderável. Ele se estabelece e... pronto! Temos de conviver com o ocorrido, encontrar uma maneira de dar sentido, perceber sinais, projetar anseios, nos debatendo ante o inesperado. É o que ocorreu na terça-feira, 12 de novembro, no Centro de Ciências Sociais da UFMA, com a morte do professor Junerlei Dias de Moraes Salleti, no prédio onde lecionava há mais de 30 anos no curso de Comunicação Social. 

Buscar palavras aqui é apenas uma tentativa de diminuir o nó que aperta a garganta, percorrer os caminhos sempre insuficientes da escrita para expressar esse espanto. Mas guarda também um traço de saudação, de agradecimento pelo que se compartilhou, da vida que se viveu, da falta que fará.

Junerlei era um professor singular, desses que existiam na universidade, aqui e ali, sempre bastante minoritários, mas hoje já em total extinção. A principal característica destes tipos era uma curiosidade aguçada, a voracidade da leitura ampla e variada. Junerlei aliava a paixão dos livros ao amor igualmente intenso às artes. Sacava de tudo, literatura de várias épocas, poesia, romances, contos, mas também muito cinema (do qual era mesmo um aficionado), teatro, artes visuais. Ao que parece, não era muito de música, pelo menos não com aquela intensidade. Passava de um campo para outro facilmente, numa conversa veloz, abundante, na verdade, transbordante, farta. 

Não fazia o gênero do professor racional, lógico. Em certa medida, era até o contrário disso. Praticava mais a linha da conversação anárquica, da empolgação exagerada, da provocação dita de passagem, sem alarde, e da sátira. Uma estrutura de pensamento fluida, intencionalmente dispersa, mas sempre informada e, ao mesmo tempo, curiosa, aberta a novas percepções. Feixes de observações, informações, lembranças que iam saindo de forma quase inesgotável, as palavras se atropelando.

Olhando agora, lembro do saudoso professor Caldeira, do departamento de Sociologia e Antropologia, que ministrou muitas aulas também no curso de Comunicação, na antiga cadeira de Realidade Sócio-econômica e Política Brasileira, um verdadeiro espaço de vale-tudo intelectual, feito ao arrepio dos programas oficiais. A conversa era vasta, tirando logo o chão doutoral do “especialista”.

São professores que convocam a liberdade e estimulam a criatividade. No fundo, são figuras rebeldes, muitas vezes mal vistas pelos seguidores fiéis da burocracia acadêmica e tidos como “improdutivos” ou até “enrolões”. Não por acaso, costumam ser bem próximos dos estudantes. Em uma palavra, eles se misturavam mesmo era com a moçada, de onde tiravam a seiva para se manter à margem dos cânones estabelecidos, que sempre ridicularizaram. 


Junerlei, à sua maneira, fez parte dessa linhagem. A sua figura nos corredores do CCSo, ou caminhando para a Biblioteca Central, que explorou até quando a visão permitiu, ou no CCH, onde sempre passava, na trilha dos livros, em conversas com os livreiros Armando e Werbeth, ou com quem encontrasse por lá. Quase sempre estava em companhia de estudantes, trocando figurinhas de todo tipo, distribuindo alegria, estimulando a conversa criativa. Era um tímido de comunicação fácil e agradável.

O professor Chico Gonçalves, seu colega de departamento e um de nossos melhores oradores, destacou muito bem, na cerimônia de sepultamento, a marca que Junerlei deixou na formação de muitos profissionais do jornalismo egressos da UFMA, relembrada por ex-alunos nas redes sociais. Ia muito além da sala de aula, estava num livro que foi indicado ou presenteado, num autor sugerido, um filme que mudou a percepção das coisas, ou mesmo num gesto de atenção e carinho. Junerlei era generoso. Nas suas palavras, ele foi um professor que levava os alunos a sonhar. O que não é nada fácil dentro de uma estrutura de funcionamento cada vez mais controladora e efetivamente vazia de criação, sem alegria. Uma coisa meio oca, sem vida pulsante, justamente o que a conversa com Junerlei sempre suscitava.

Ele não se enquadrava nos moldes do professor produtivo, guiado pelo Lattes e envolvido num verdadeiro ranking com seus pares. Trabalhava como quem brinca. Lia rápido e tinha um leque que permitia sugerir conexões que soavam às vezes até absurdas. Mas era acima de tudo a liberdade do pensamento, envolto no lúdico, na brincadeira. Nunca abriu mão de combinar essas coisas.

Agora estamos diante da cena terrível. O corpo continua lá, na sala de aula, espaço onde exerceu sua arte da transgressão, isolada com fitas que indicam uma ocorrência trágica. Seus alunos, os colegas de trabalho, antigos e novos, funcionários da administração, da limpeza e da vigilância, a vendedora de lanches, todos atônitos. Amanhã, o dia reinicia, a vida e seus compromissos nos chamam de volta, a roda do mundo continua seu giro, como se simplesmente prosseguisse. Mas tudo é apenas a superfície, no fundo, sabemos que algo se partiu, foi interrompido. 

Não teremos mais o sorriso largo de Junerlei, a fala intensa, com um sotaque levemente estranho, pois “soy argentino”, os óculos fundo de garrafa, outra de suas características marcantes, a respiração ligeiramente ofegante, ansiosa. Como disse sua amada Wilne, era pura intensidade. Nos últimos anos, sofria cada vez mais de problemas na visão, uma doença rara, de nome complicado, que nunca entendi direito, sempre piorando, não obstante as várias consultas com especialistas. Acho que por conta disso, num certo momento passou por um quadro de depressão.

Com o tempo, a piora da visão foi minando um pouco da sua alegria. As aulas foram se tornando um peso. Sonhava intensamente com a aposentadoria, enquanto a universidade tomava seu caminho decidido no rumo da organização empresarial, regida por critérios quantitativos, no rolo compressor da bestialização titulada e arrogante, que é hoje a nossa realidade. Em contraposição radical a isso tudo, Junerlei era de uma simplicidade quase infantil, destituído de vaidade intelectual. Não posava de sabido, brincava com os falsos sabichões. Com o agravamento da doença, agudizou-se a insatisfação com a universidade, que consumiu suas forças, absolutamente impávida ante seu sofrimento. 

Junerlei morto na sala de aula do CCSo é um desfecho trágico a essa existência alegre e luminosa. No fundo, foi sugado numa máquina uniformizadora cada vez mais eficiente em impedir a criatividade e a alegria. Houve um tempo, não muito distante, que a universidade era espaço de invenção e resistência, de trocas e sonhos. Hoje, é um lugar esvaziado, vivendo em agonizante desertificação, perdida entre a fantasia farsesca da competência e o pesadelo real da diluição no mercado. Nela não há mais espaço para figuras como Junerlei, um rebelde desconcertante que ia decidido para a briga empunhando uma flor. Tempos difíceis, de espanto e dor, no ano em que perdemos, em condições similares, outro professor da mesma linhagem, Antonio José, do departamento de Filosofia. Os que ficamos, seguimos carregando nossos mortos, suas lembranças e lutas. 

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Cartas de um Professor em Greve

 

Uma Carta-Manifesto violenta e necessária, apontando o abismo em que se encontram a Cultura e a Educação, movidas cada vez mais pela mercantilização crescente de suas atividades. Um alerta para o momento crucial atual, em que os agentes não parecem se dar conta do esvaziamento dos significados de suas ações. 

Soa o alarme de perigo da esterilização total da Cultura e do sufocamento final da Universidade Pública. Restará em seus lugares, a espetacularização estridente e vazia, o fake tornado realidade incontestável e catalogado no altar das mercadorias. O “boizinho de butique” (Celso Borges) e as “universidades de esquina” são faces da mesma moeda da corrosão de nossas potencialidades não realizadas.

Download abaixo:

Cartas de um Professor em Greve

quinta-feira, 28 de março de 2024

Bom Jesus dos Navegantes - Irmandade e Capela

 Em mais uma incursão no universo da religiosidade católica em São Luís, após o livro sobre a Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, publicado em 2022, a professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix nos apresenta uma preciosa pesquisa sobre a Irmandade do Bom Jesus dos Navegantes e sua Capela, anexada à Igreja de Santo Antônio. Uma irmandade leiga, voltada para os festejos da Quaresma e as procissões da Paixão de Jesus Cristo. 

Trabalho delicado, de remontar aspectos da história desta instituição, seus integrantes e a dinâmica de funcionamento, suas finanças, aquisições e realizações, além de propiciar um verdadeiro tour pela arquitetura da Capela, os diferentes espaços e imagens sagradas. Tudo realizado através de paciente pesquisa, utilizando documentação esparsa, basicamente as atas da diretoria ainda existentes, ofícios e livros contábeis, aliado a notícias da imprensa local sobre as procissões e atividades desenvolvidas pela Irmandade e alguns relatos memorialísticos.

Desfazendo equívocos comuns, como a identificação entre a antiga Capela de Santa Margarida e a Capela do Bom Jesus dos Navegantes, a pesquisa consegue acompanhar a história desta irmandade católica centenária, apesar das lacunas importantes na documentação consultada, recuperando tempos em que as procissões organizadas pelas irmandades eram acontecimentos destacados na cidade, cerimônias não-litúrgicas com cenas comoventes e grande assistência de público. 

Hoje, as procissões perderam relevo e importância, mas a antiga Irmandade dos Navegantes ainda mantém a tradição da Procissão da Fugida, na quinta-feira, e a do Encontro, na sexta-feira santa. No domingo de Páscoa, a Missa da Ressureição, com a elevação da imagem do Cristo Ressuscitado, invenção única dos tempos do incansável Augusto Aranha Medeiros, o grande guardião da Capela. Um registro feito a partir de documentos e referências guardadas zelosamente por Nizeth Medeiros, sua filha e sucessora.    

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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Literatura e Performance

Uma visão insólita da nossa República das Letras no início do século XX e uma visita ao experimental dos anos 70 formam o largo espectro deste Literatura & Performance. Através de pesquisa em jornais da época, Isis Rost vai à pré-história do modernismo oswaldiano, remontando o caso da sua fixação na bailarina Carmen Lydia, uma menina que o fascinou durante anos, e o encontro explosivo e trágico com a normalista Maria de Lourdes, a Miss Cyclone, personagem múltipla, farol luminoso do diário coletivo intitulado O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, desenvolvido na primeira garçonnière, localizada na rua Líbero Badaró, entre maio e setembro de 1918. Traços iniciais do ato antropofágico que desabrocharia na década seguinte. 

Da província que alçava o voo do modernismo, para São Luís do Maranhão, capital de antiga província já abatida no sonho efêmero de pujança vivido no início do século XIX e mergulhada na construção fantasmagórica de uma identidade ilustre. Sob a capa da Atenas Brasileira, a realidade crua das marcas da escravidão, do racismo à flor da pele, explode na polêmica envolvendo o germanófilo Antônio Lobo, considerado fundador da Academia Maranhense de Letras, e o intelectual negro Nascimento Moraes, autor de Vencidos e Degenerados, um romance sobre o momento da Abolição e da República em São Luís. A mesma cidade, bela, terrível e mesquinha, inscrita na poética de Nauro Machado, visto aqui numa chave interpretativa além do tradicionalismo em que alguns tentam enquadrar (e resumir) sua obra. 

De volta ao centro, ao mundo da performance e do experimental, em escritos de Antonin Artaud e na literatura de Valêncio Xavier, caracterizada pela apropriação/fusão de textos, imagens, recortes; no “não cinema” de Hélio Oiticica em Agripina é Roma-Manhattan, curta realizado em New York, reverberando Sousândrade de O Inferno de Wall Street, sua genial intuição do novo império; e na arte visceral da cubana exilada Ana Mendieta, arte do corpo feminino, arte efêmera, arte conceitual. Performance, vídeos, instalações, esculturas em rochas, a água, a terra, o fogo, o belo e o grotesco, natureza e sangue, tudo se mistura no furacão visual do texto elaborado em série e disposto em forma de silhuetas, num voo radical sobre a obra da artista desterrada, arremessada à morte. Direto e vibrante, o livro de Isis Rost é viagem surpreendente aos subterrâneos da literatura e das artes no século XX.  


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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

O Cálice de Kafka

Livro vivo, vivíssimo, bem vivo e bem-vindo. Livro livre e findo, porque só a vida enfrenta a morte. A vida tem fim e o último passo está no compasso de nossa origem. O rufar do Cálice de Kafka nos chega antes da última lufada. Paulo José Cunha, poeta desta grande família piauiense donde veio o mestre Torquato Neto, vai, ao longo deste seu poema – fragmentado em versos leves e certeiros como aquela velha Senhora que nos observa fria e sincera – oferecendo um cardápio de beleza poética curiosa e única.

Todos os trinta e cinco poemas deste Cálice de Kafka são dedicados às aventuras da velha e digníssima Senhora, cuja chegada é certeza em vida... certezíssima.

Um dia ela virá. Por isso, a morte não deve ser encarada morbidamente, mas sim como um ser concreto e cíclico. Pois a finitude é sina, não é opção. Dela não se escapa, a não ser encarando-a com serenidade e firmeza. A saída é a própria saída. Como diria Torquato:

- Um brinde à vida, enquanto a morte está parida!

Tim-tim!

Luís Turiba

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O Cálice de Kafka

domingo, 4 de fevereiro de 2024

Olhares - Regards

 Desde cedo, Eloah demonstrou interesse pelo universo artístico, refletido seja num gosto musical peculiar para a idade, como Beatles ou Cream, ou através das inclinações para a leitura e o desenho. Mesmo quando ainda não havia aprendido a ler, irradiava de felicidades sempre que ganhava um livrinho ou algum caderno novo sem pautas para desenhar.  Não demorou pra descobrir a fotografia, a partir de câmeras de celulares e de máquinas fotográficas que encontrava pelo caminho. Como uma provocação movida por curiosidades, a brincadeira passou a envolver estes elementos, tornando-se cada vez mais séria, na medida em que os anos passavam e o entrosamento com as artes se fortalecia. 

Há sete anos, Eloah saiu do Brasil e foi morar na França com Karen, minha irmã e sua mãe. Ainda assim, pude acompanhar seu desenvolvimento em cada desenho, fotografia, impressões enviadas para amenizar a saudade que a distância impunha. Este material foi sendo arquivado por mim, e resultou na montagem de “Olhares”, um livrinho articulado despretensiosamente, como uma surpresa, um presente de aniversário de 13 anos. É dividido em dois blocos: o primeiro reúne vários desenhos, evidenciando a evolução e a sensibilidade dos traços; o segundo bloco são as fotografias, em cliques de cenas variadas.  

Isis Rost 


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terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Crônicas de um Piauinauta

 UM SÉCULO QUE NÃO COMEÇOU


Neste livro lemos minicrônicas discorrendo e escritas, quase sempre, em cima de acontecimento recente. Com a publicação agora, essa distância ganha um significado surpreendente. São relembrados acontecimentos importantes, que foram esquecidos por falta de espaço nas nossas memórias, atacadas por bordoadas de informações da modernidade digital. E, muitas delas, com relevância para a espiral da História, mesmo que, no momento em que foram escritas, parecessem não ter qualquer ligação. As impressões da realidade prenunciavam o vulcão da idiotia nacional, que logo aconteceria. Como se o século anterior tivesse aprisionado a espiral da História, o que só se percebe agora, numa leitura com distanciamento.
Este é um século que ainda não começou, apesar do avanço tecnológico. Prisioneiros do século XX, 1964 retorna e nos surpreende, com uma farsa que, felizmente, não se afirmou. Mas será que nos livramos dele, quando a extrema-direita ousou aparecer sem vergonha em todo o planeta?

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