sábado, 24 de outubro de 2026

O L, a arminha e a metástase da intolerância

 




Helen Lopes 


"Hoje, fui ao supermercado comprar o que faltava em casa. Entre o arroz, o feijão e a inflação (essa, sim, sem partido e sem piedade), encontrei um retrato do Brasil que nenhuma pesquisa eleitoral consegue captar. No peito, carregava um adesivo de Lula: a mão sem um dedo formando o L. Numa cidade onde os adesivos do 22 parecem ter estacionamento preferencial, resolvi exibir o meu. Uma pequena provocação, confesso. Em tempos de polarização, usar um adesivo contrário à maioria virou esporte radical. Há quem prefira rapel. Eu enfrento olhares de rabo de olho e atravessados no corredor das verduras.

Foi quando uma criança de uns cinco anos começou a apontar para mim, chamando a atenção da mãe. O menino me encarou como se tivesse encontrado um extraterrestre entre as maçãs e, de repente, fez arminha com os dedos. Respondi ao gesto, mas transformei a arma em um L. Ele sorriu e balançou a cabeça negativamente. A mãe entrou em campo e fez o sinal do 22. A democracia familiar funcionou perfeitamente: o pequeno eleitor, ainda sem título, já havia aprendido a simbologia política da casa. Olhei para ela e disse: “Eu prefiro livro a arma”. Continuei as compras, mas a cena ficou comigo.

O menino não tinha culpa. Aos cinco anos, aprende-se a imitar antes de compreender. A questão é o que os adultos oferecem como referências. Há famílias que apresentam livros, perguntas e descobertas; outras parecem empenhadas em preparar os filhos para uma guerra imaginária, na qual todo contrário precisa se tornar inimigo. Havia, ainda, um detalhe: a criança vestia o uniforme de uma escola cívico-militar. Seria injusto atribuir à instituição a origem do gesto, que pode ter sido aprendido em casa, na televisão ou no celular. Ainda assim, a coincidência me fez pensar nessa curiosa versão de civismo em que a farda ganha mais prestígio que o pensamento, a obediência vale mais que o questionamento e a disciplina parece exigir uma sombra permanente de militarização.

Para certos defensores da pátria, da moral e dos cambaus, um livro pode ser perigoso, mas uma arminha feita com os dedos é motivo de orgulho. A leitura ameaça; a violência diverte. Na receita política da extrema direita, exalta-se a arma, ridiculariza-se o diálogo e demoniza-se o adversário, enquanto tudo isso é vendido como coragem e patriotismo. O político simula atirar em alguém para a fotografia, a plateia aplaude, as redes viralizam e a família reproduz o espetáculo da estupidez. “Deus, pátria e família”: uma cadeia produtiva eficiente, em que o ódio sai do palanque ou do púlpito, passa pelas redes sociais e chega às mãos de uma criança.

Isso não significa que aquele menino será violento, assassino ou que seu futuro esteja condenado. O que inquieta é a naturalidade com que um gesto associado à exaltação das armas aparece na infância. A metástase da intolerância nem sempre começa com um tiro. Às vezes, começa com uma piada, um gesto repetido ou uma ameaça celebrada como bravura. Começa quando intimidar é confundido com vencer e a gentileza vira sinônimo de fraqueza.

Saí do supermercado sem saber o que a mãe pensou da minha frase. O menino provavelmente já estava pensando em outra coisa. A infância tem essa vantagem: muda de assunto antes que os adultos terminem suas guerras. Eu, porém, continuei pensando naquela mãozinha. Havia detergente para limpar a casa, desinfetante para o chão e promoções imperdíveis, mas nenhum produto capaz de remover o ódio que os adultos, por convicção ou conveniência política, deixam escorrer para a infância.

No supermercado da política brasileira, o ódio é vendido como patriotismo, e a ignorância vem com selo de família tradicional. Continuo pensando naquela mãozinha de cinco anos, fazendo arminha entre as maçãs, sem compreender o peso do gesto que imitava. A criança não tem culpa. Tomara que, um dia, aqueles dedos que hoje simulam disparos aprendam a virar páginas, construir pontes e acolher quem pensa diferente. Porque, quando uma criança aprende a fazer arminha antes de aprender a dialogar, não é apenas a infância que está em risco, mas o futuro que os adultos dizem querer proteger.

Se a política precisa de crianças apontando os dedos como armas, talvez não esteja formando cidadãos, mas recrutando pequenos soldados para uma guerra de intolerância, de preconceitos." 

 

 

 

 

 


Um comentário: