Helen Lopes
"Hoje, fui ao supermercado comprar
o que faltava em casa. Entre o arroz, o feijão e a inflação (essa, sim, sem
partido e sem piedade), encontrei um retrato do Brasil que nenhuma pesquisa
eleitoral consegue captar. No peito, carregava um adesivo de Lula: a mão sem um
dedo formando o L. Numa cidade onde os adesivos do 22 parecem ter
estacionamento preferencial, resolvi exibir o meu. Uma pequena provocação,
confesso. Em tempos de polarização, usar um adesivo contrário à maioria virou
esporte radical. Há quem prefira rapel. Eu enfrento olhares de rabo de olho e
atravessados no corredor das verduras.
Foi quando uma criança de uns
cinco anos começou a apontar para mim, chamando a atenção da mãe. O menino me
encarou como se tivesse encontrado um extraterrestre entre as maçãs e, de
repente, fez arminha com os dedos. Respondi ao gesto, mas transformei a arma em
um L. Ele sorriu e balançou a cabeça negativamente. A mãe entrou em campo e fez
o sinal do 22. A democracia familiar funcionou perfeitamente: o pequeno
eleitor, ainda sem título, já havia aprendido a simbologia política da casa.
Olhei para ela e disse: “Eu prefiro livro a arma”. Continuei as compras, mas a
cena ficou comigo.
O menino não tinha culpa. Aos
cinco anos, aprende-se a imitar antes de compreender. A questão é o que os
adultos oferecem como referências. Há famílias que apresentam livros, perguntas
e descobertas; outras parecem empenhadas em preparar os filhos para uma guerra
imaginária, na qual todo contrário precisa se tornar inimigo. Havia, ainda, um
detalhe: a criança vestia o uniforme de uma escola cívico-militar. Seria
injusto atribuir à instituição a origem do gesto, que pode ter sido aprendido
em casa, na televisão ou no celular. Ainda assim, a coincidência me fez pensar
nessa curiosa versão de civismo em que a farda ganha mais prestígio que o
pensamento, a obediência vale mais que o questionamento e a disciplina parece
exigir uma sombra permanente de militarização.
Para certos defensores da pátria,
da moral e dos cambaus, um livro pode ser perigoso, mas uma arminha feita com
os dedos é motivo de orgulho. A leitura ameaça; a violência diverte. Na receita
política da extrema direita, exalta-se a arma, ridiculariza-se o diálogo e
demoniza-se o adversário, enquanto tudo isso é vendido como coragem e
patriotismo. O político simula atirar em alguém para a fotografia, a plateia
aplaude, as redes viralizam e a família reproduz o espetáculo da estupidez.
“Deus, pátria e família”: uma cadeia produtiva eficiente, em que o ódio sai do
palanque ou do púlpito, passa pelas redes sociais e chega às mãos de uma
criança.
Isso não significa que aquele
menino será violento, assassino ou que seu futuro esteja condenado. O que
inquieta é a naturalidade com que um gesto associado à exaltação das armas
aparece na infância. A metástase da intolerância nem sempre começa com um tiro.
Às vezes, começa com uma piada, um gesto repetido ou uma ameaça celebrada como
bravura. Começa quando intimidar é confundido com vencer e a gentileza vira
sinônimo de fraqueza.
Saí do supermercado sem saber o
que a mãe pensou da minha frase. O menino provavelmente já estava pensando em
outra coisa. A infância tem essa vantagem: muda de assunto antes que os adultos
terminem suas guerras. Eu, porém, continuei pensando naquela mãozinha. Havia
detergente para limpar a casa, desinfetante para o chão e promoções
imperdíveis, mas nenhum produto capaz de remover o ódio que os adultos, por
convicção ou conveniência política, deixam escorrer para a infância.
No supermercado da política
brasileira, o ódio é vendido como patriotismo, e a ignorância vem com selo de
família tradicional. Continuo pensando naquela mãozinha de cinco anos, fazendo
arminha entre as maçãs, sem compreender o peso do gesto que imitava. A criança
não tem culpa. Tomara que, um dia, aqueles dedos que hoje simulam disparos
aprendam a virar páginas, construir pontes e acolher quem pensa diferente.
Porque, quando uma criança aprende a fazer arminha antes de aprender a
dialogar, não é apenas a infância que está em risco, mas o futuro que os
adultos dizem querer proteger.
Se a política precisa de crianças
apontando os dedos como armas, talvez não esteja formando cidadãos, mas
recrutando pequenos soldados para uma guerra de intolerância, de preconceitos."

Bela reflexão, Helen. Estamos tristemente assim.
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